04/12/2010

O martírio do medo

A vida moderna, com todas as suas complexidades, pode também ser considerada como portadora do martírio do medo.
O ser humano, embora aquinhoado pelos valiosos contributos da Ciência e da Tecnologia, conquistando, cada vez, mais espaço e penetrando mais fundo no milagre das micropartículas, ao invés de apresentar um coeficiente superior de harmonia e de felicidade, padece conjunturas impalpáveis no mundo íntimo, que se expressam ou se escamoteiam em formas de medo.
Vive-se, na Terra, a ditadura do medo.
Não somente das barbáries do terrorismo internacional, das guerras monstruosas, das epidemias destruidoras, dos desastres naturais ou de veículos motorizados, mas também, e principalmente, daquele que se deriva de inúmeros conflitos que não têm sido detectados nem resolvidos com segurança.
O medo, no entanto, é um fenômeno normal na vida, quando se está diante do desconhecido ou na expectativa de algum resultado, como fruto da insegurança emocional.
Porque não ama conforme deveria, o indivíduo opta pela fuga, através do medo, aos enfrentamentos que lhe podem oferecer equilíbrio e paz.
Aturdido por conflitos psicológicos, permite-se o medo como atitude preventiva a dissabores ou a incompreensões, aquartelando-se nas suas sombras, sem viver em plenitude, evitando as experiências que podem contribuir em favor da sua auto-realização.
Por conseqüência (sic), foge de todos, mesmo quando loquaz e palrador, aparentemente extrovertido, embora sofrendo a constrição perturbadora da ausência de auto-estima e autovalorização.
O medo inibe as belas florações da amizade e dos ideais superiores da vida, que dão sentido e significado existencial ao ser.
Tem-se medo de amar, acreditando-se na possibilidade da traição ou do abandono, de interesses escusos ou de apenas necessidade de companhia, elegendo-se a solidão ou o acompanhamento de pessoas descartáveis, com as quais não se firmam laços de real afeição. (...)
O amor, no entanto, é o grande antídoto ao medo.
Quando se aprende a amar, naturalmente desabrocha a confiança, e a alegria da convivência faz-se natural, ampliando os sentimentos de lídima afeição, que esbatem as sombras das dúvidas, dos receios injustificados, dos medos que se tornam, muitas vezes, patológicos.
Elegendo-se o medo, a vida perde o sentido, e o indivíduo emurchece pela falta de espontaneidade para viver e realizar-se.
Posterga, nesse caso, as realizações que podem ser-lhe enriquecedoras, sempre sob o estigma do medo do fracasso, como se toda atividade tivesse necessariamente que ser coroada de imediato êxito, nas suas primeiras tentativas de realização. O insucesso é a experiência que ensina como não mais se tentar o labor dentro do esquema que deu errado.
Atravessam-se, desse modo, os belos períodos da infância, da juventude e da idade adulta cultivando-se o medo absurdo, para dar-se conta de que se perderam os melhores períodos da vida, quando a velhice assoma e a oportunidade não tem mais retorno.
A eleição do amor expulsa dos espaços emocionais o martírio do medo.

(Joanna de Ângelis: Psicografia de Divaldo Franco)

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