13/12/2011

A Vida em Preto e Branco*

O filme “ A Vida em Preto e Branco” é uma ótima oportunidade de repensarmos a maneira irrefletida, mecânica e monocromática que podemos agir e viver. Quantas escolhas são pautadas por valores que não são nossos e que apenas reproduzimos? A vida em Pleasantville era repetição pura  tudo lá era sabido e previsível até que o desejo e o livre-arbítrio entraram em cena e trouxeram mudanças. A monotonia  e a previsibilidade, que podem ser comparadas ao superego, garantiam a ordem do lugar e das relações. A  monotonia do casamento  trás muitas vezes a insatisfação e a traição e o filme retratou-a com sutileza. Não faltou a mulher servil à espera do marido para nos lembrar que o passado ainda ronda os dias atuais. Como saber o que desejamos se não paramos para pensar nisto? Se não conhecemos nossos desejos e se nem nos conhecemos? O enredo mostra claramente o modo mecânico como podemos viver, nos faz pensar que a vida é realmente muito sem graça quando não há nela a consciência dos nossos sentimentos, emoções,  nossa afetividade, desejo e  sexualidade. E não deixa dúvida de que é a soma de tudo isto que dá o “tom colorido” que necessitamos para viver. A cena onde os habitantes se reúnem para  julgar e punir os "desordeiros" e que mostra o prefeito e o pai de Bud tornando-se coloridos na medida em que iam explicitando suas vontades confirma este pensamento. A sexualidade está em nós e não há como escondê-la,  assim como a cor que ia surgindo nas pessoas. Esta cor para alguns era motivo de alegria e para outros de constrangimento. No entanto, o filme deixa seu recado ao dizer que sexualidade não é tão somente sexo quando a personagem de Mary  Sue questiona ao irmão o porquê dela ainda estar  “sem cor “ mesmo depois de ter transado. Mais adiante a transformação de sua postura reforça isto. Outro momento simbólico é quando a árvore pega fogo. A falta do que fazer diante do fogo, tanto dos bombeiros quanto do restante das pessoas, representa a nossa inadequação frente a sexualidade e o nosso desconforto com algo que é inerente à nossa condição, mas totalmente desconhecido e, por vezes, temido. Bud chega a agir  de maneira ingênua no começo ao acreditar que os bombeiros saberiam o que fazer com o fogo ou seja, com o desejo, com o sexo. Eles só sabiam lidar com o gato, que era a representação da superficialidade e da rotina. A biblioteca com seus livros e a alamenda dos namorados representavam lugares ameaçadores pois era ali que algo estranho ocorria, se arquitetava e tinha que ser freado, destruído. E hoje encontramos muitas maneiras de frearmos o conhecimento e as várias formas das pessoas manifestarem seus afetos e libido. Criamos e alimentamos a cultura do pecado, do proibido e no filme nem a maçã do pecado faltou. A chuva é o medo do desconhecido mas é a possibilidade da experimentação. O que há para além de Pleasantville? Ao se questionarem deixaram aflorar o desejo de descobrir, de libertar-se da ignorância, do controle e do medo. Não há como saber o que virá a seguir em nossas vidas, este desconhecimento trás mil possibilidades de experimentação e criação, e isto é  a vida de fato. Gostei muito de assistir a Vida em Preto e Branco  pois tem um enredo cheio de material para debate e  reflexão, este filme eu também recomendo.

Um fraterno abraço.

* este texto foi elaborado por Simone Ferreira como atividade na disciplina Tecnologias e Formação de Educadores: Interfaces com a Temática da Educação Sexual quando cursava o Mestrado em Educação na UDESC.

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